Liderança Que Escuta Sem Ouvir
- Andre Felippa
- 29 de jul.
- 2 min de leitura

Por que tantos líderes fingem escutar, sem realmente ouvir?
A maioria reconhece a importância da escuta ativa. Muitos até acham que a praticam. Mas é só observar algumas reuniões, conversas de feedback ou discussões estratégicas para notar o contrário.
O que prevalece, para muitos, é a resposta rápida, a escuta seletiva, e o discurso pronto antes da fala terminar.
Isso acontece em parte pela experiência acumulada. Com o tempo, os líderes desenvolvem padrões mentais que economizam esforço e energia. Ao escutar, antecipam o que vem. Conectam o que ouvem a algo que conhecem. Concluem antes do final. E, sem perceber, deixam de captar nuances importantes, ouvindo apenas aquilo que reforça o que já sabem.
Outro fator é a velocidade. Liderar em alto nível exige decisões rápidas, alto volume de interações e informações, lidando com múltiplos temas ao mesmo tempo. Nesse cenário, escutar com profundidade parece um luxo, algo que desacelera e compromete a produtividade.
Só que, quanto mais o líder acelera, mais ele afunila sua visão. Esse “tunnel vision” reduz drasticamente sua capacidade de decidir com clareza.
Existe um fator ainda mais sutil. Escutar bem exige presença, curiosidade e disposição para rever ideias. Nem sempre isso combina com a imagem que se espera de um líder forte. Muitos evitam se colocar nesse lugar porque têm receio de parecer inseguros. Como se escutar de verdade diminuísse sua autoridade.
Só que na realidade acontece o oposto. Quando o líder escuta bem, ele se fortalece. Sua escuta ativa cria empatia, amplia leitura de contexto, estimula inovação e detecta desalinhamentos antes que explodam.
Há outro efeito pouco comentado, e muito corrosivo: quando um líder para de escutar, as pessoas também param de falar. O time aprende a calibrar o discurso. A esconder o incômodo. A comunicar só o mínimo.
E o líder começa a operar com base em um cenário fictício. Parece tudo sob controle, mas não está. A desconexão se instala com elegância, sem ruído. Só que ela custa caro.
Escutar não é apenas parar para ouvir. É ter coragem de assumir que não se sabe tudo, e disposição real para continuar aprendendo.